Eu me considero um sujeito sincero, e, por isso, tenho receio de determinadas perguntas. Quando, ainda ao longe, eu avistei o pai dela, que lavava a calçada ou o carro, não me lembro, despreocupado com a situação prestes a acontecer, bem pude criar uma voz para o senhor Valdemir apenas para que ele pudesse fazer uma única pergunta: "o que você faz da vida?"
Conforme nos aproximávamos, minha pele era uma esponja, todas os sentimentos se reuniam dentro de mim até que eu ficasse completamente branco e estourasse num aperto de mãos: seus olhos calmos me olhavam e eu, desajeitado, já esperava o fim: "o que você espera do futuro?"
Antes havia o nada, e o mundo não era música pois era silêncio: seus lábios apenas formaram um sorriso casual, sua mão contra a minha; com a vista fora de foco, uma voz, que nem era grave, de algum lugar, com palavras de finais abruptos, disse:
– Prazer, Valdemir.
Quando entrei, dona Zenith, que via pela primeira vez, disse pra eu ficar tranquilo.
– Por que sua mãe disse isso?
– Porque você tá branco, Matheus.
Ela saiu e sumiu pelo corredor, me abandonando na cozinha vazia: a qualquer momento alguém podia aparecer por uma das três portas e me perguntar "então você vai dar aula, é?" e eu não saberia o que dizer; o impropério de me deixar para trás não seria esquecido jamais, até ela voltar e eu me sentir seguro novamente - dentro desse mar que as terras portuguesas ainda não haviam navegado.
No final das contas, as provações foram medianas: informações concretas, respostas que podiam ser baseadas no presente. "Então você está fazendo história, também?", essa eu pude responder quase com total certeza: "sim"; entendi que observações adicionais não eram necessárias.
Até um momento em que a senhora disse alguma coisa e eu, como resposta, mandei algo em menos de meio segundo; Jeanne me encarou com os olhos arregalados de "como assim?", mas eu não me desequilibrei: sem mais nada, apenas "aham", só o necessário, e eu posso voltar a não ter ideia do que esteja acontecendo.
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